Confesso que nunca consegui entender completamente a Marcha para Jesus.
Não estou dizendo que sou contra. Também não sou daqueles que criticam qualquer manifestação pública da fé cristã. Pelo contrário. Acho saudável que cristãos saiam dos templos, ocupem espaços públicos e testemunhem sua fé sem constrangimento.
Mas, depois de tantos anos assistindo às edições da marcha, continuo me perguntando: afinal, qual é o seu propósito?
É evangelismo?
Se for, seria interessante saber quantos descrentes são alcançados. Quantos se convertem. Quantos passam a frequentar uma igreja. Quantos abandonam uma vida distante de Deus após participarem do evento.
É comunhão entre os cristãos?
Pode ser. Embora a comunhão bíblica sempre tenha me parecido algo mais profundo do que caminhar algumas horas ao lado de milhares de desconhecidos ouvindo música em cima de trios elétricos.
É uma demonstração pública de fé?
Talvez.
Mas, sinceramente, depois de tantos anos, a impressão que tenho é que a Marcha para Jesus se transformou numa gigantesca vitrine onde cada participante parece encontrar um objetivo diferente. O cantor divulga sua agenda. O pastor fortalece sua influência. O político busca votos. O partido procura simpatizantes. A emissora gera conteúdo. O influenciador produz vídeos. E Jesus... bem, Jesus parece cada vez mais difícil de encontrar no meio da multidão.
O que mais me chamou a atenção neste ano não foram os milhares de cristãos presentes.
Foram os políticos.
Ali estavam figuras de todos os matizes ideológicos. Alguns deles defendendo pautas frontalmente incompatíveis com princípios bíblicos elementares. Outros que durante anos demonstraram absoluto desinteresse pelos valores cristãos, mas que, curiosamente, descobriram uma repentina afinidade com os evangélicos justamente quando o calendário eleitoral começa a se aproximar.
Nada contra políticos participarem de eventos religiosos.
Mas quando a presença deles se torna mais notada do que a mensagem pregada, alguma coisa saiu do lugar.
E como se não bastasse, ainda tivemos a ligação telefônica do presidente Lula para o evento, intermediada pelo bispo Estevam Hernandes.
A cena foi simbólica.
Enquanto milhares de pessoas participavam de uma marcha cujo nome faz referência ao Filho de Deus, uma das atenções principais acabou direcionada para uma autoridade política.
Não questiono o direito de ninguém falar. Nem o direito de um presidente cumprimentar participantes de um evento popular.
O que questiono é a inversão de prioridades.
Quando o púlpito se torna palanque, o Reino de Deus inevitavelmente perde espaço para os interesses do reino dos homens.
A Bíblia registra multidões seguindo Jesus pelas estradas da Galileia. Mas havia uma diferença fundamental. Elas caminhavam para ouvir Cristo.
Hoje, muitas vezes, parece que Cristo serve apenas como tema do evento.
A atração principal é outra.
Talvez eu esteja ficando velho.
Talvez eu seja excessivamente desconfiado.
Ou talvez eu simplesmente sinta falta da simplicidade do Evangelho.
Aquele Evangelho que não precisava de trio elétrico, celebridades, autoridades políticas nem estratégias de marketing para transformar vidas.
No fim da tarde, olhando as imagens da marcha, fiquei com a impressão de que milhares de pessoas realmente desejavam honrar a Deus. Não duvido da sinceridade delas.
Mas também fiquei com a sensação de que muitos dos que estavam nos palcos tinham interesses bem diferentes.
E foi então que me ocorreu uma reflexão incômoda.
Em ano eleitoral, parece que todo mundo quer marchar.
Marcha a direita.
Marcha a esquerda.
Marcha o centro.
Marcha o oportunista.
Marcha o candidato.
Marcha quem busca votos.
Marcha quem busca visibilidade.
Marcha quem busca influência.
Só não tenho certeza se todos estão, de fato, marchando para Jesus.

.jpg)
.jpg)
%20(2).jpg)
%20(6).png)
%20(2).png)
%20(1).png)