quarta-feira, 17 de junho de 2026

QUANDO A SEXUALIDADE VIRA ESPETÁCULO

 


QUANDO A SEXUALIDADE VIRA ESPETÁCULO

Uma reflexão sobre o novo modismo evangélico

Por Samuel Souza

Há algum tempo comecei a observar um fenômeno curioso dentro do meio evangélico brasileiro. De repente, surgiram especialistas por toda parte. Homens e mulheres que transformaram a sexualidade em tema central de suas palestras, congressos, perfis em redes sociais, podcasts e encontros para casais.

Não se trata apenas de terapeutas ou profissionais da área da saúde. Pastores, líderes, palestrantes e influenciadores cristãos passaram a dedicar boa parte de seu tempo a falar sobre intimidade conjugal, técnicas para melhorar o relacionamento, formas de reacender o desejo e maneiras de tornar a vida sexual mais interessante.

À primeira vista, alguém poderia perguntar: qual é o problema?

Nenhum, desde que o assunto seja tratado com seriedade, responsabilidade e à luz das Escrituras.

O problema começa quando a sexualidade deixa de ser um tema e passa a ser um espetáculo.

Nos últimos anos, tornou-se comum assistir a palestras onde termos chulos são utilizados diante de auditórios lotados. Mulheres falam para mulheres utilizando expressões que dificilmente seriam pronunciadas em ambientes cristãos há algumas décadas. Pastores contam piadas de duplo sentido em congressos de casais. Influenciadores produzem conteúdos cuidadosamente planejados para provocar curiosidade e gerar engajamento.

As imagens utilizadas nas redes sociais frequentemente se aproximam mais da publicidade sensual do que da comunicação cristã. Os títulos são construídos para despertar fantasias. As chamadas prometem segredos, descobertas e experiências capazes de transformar qualquer casamento.

O que deveria ser uma conversa madura e equilibrada muitas vezes se transforma numa mistura de entretenimento, marketing digital e aconselhamento superficial.

A questão que me preocupa não é apenas a vulgaridade crescente. O que me preocupa é a mudança de foco.

Durante séculos, a Igreja ensinou que o maior problema do homem era o pecado. Hoje, em alguns ambientes, parece que o maior problema passou a ser a falta de criatividade na vida sexual.

Enquanto isso, temas como arrependimento, santidade, domínio próprio, temor de Deus, mortificação da carne e crescimento espiritual vão sendo empurrados para as margens do discurso.

Não estou sugerindo que a sexualidade deva ser ignorada. A Bíblia não a ignora. O casamento inclui intimidade física, e as Escrituras reconhecem sua importância. O problema é que a Bíblia jamais tratou o assunto com a obsessão que vemos atualmente.

Existe uma diferença entre orientar e estimular.

Existe uma diferença entre ensinar e explorar.

Existe uma diferença entre esclarecer e transformar o tema em produto.

Talvez estejamos vivendo um momento em que alguns descobriram que sexo vende. Sexo gera visualizações. Sexo gera compartilhamentos. Sexo atrai público. E, como consequência, muitos passaram a falar sobre o assunto não porque seja o mais importante, mas porque é o que mais chama atenção.

A pergunta inevitável é: estamos ensinando princípios bíblicos ou alimentando curiosidades humanas?

Outra questão raramente discutida é a competência daqueles que assumiram a posição de especialistas.

Muitos desses palestrantes possuem pouca ou nenhuma formação sólida sobre sexualidade humana. Sua experiência limita-se à própria vivência pessoal, a alguns cursos rápidos ou à leitura de livros populares. Ainda assim, sentem-se autorizados a aconselhar milhares de pessoas sobre uma das áreas mais delicadas da existência humana.

E aqui reside um perigo que poucos percebem.

A sexualidade não é uma brincadeira inocente.

Ela não é um brinquedo emocional.

Ela não é apenas uma fonte de prazer.

Ela é uma das forças mais poderosas da natureza humana.

Quem conhece minimamente a história da humanidade sabe disso.

Guerras foram iniciadas por causa dela.

Famílias foram destruídas por causa dela.

Ministérios foram arruinados por causa dela.

Vidas foram consumidas por causa dela.

Quando mal administrada, a sexualidade pode tornar-se tão escravizadora quanto muitos vícios que costumamos condenar.

Aliás, talvez uma das maiores ingenuidades do nosso tempo seja imaginar que os desvios sexuais surgem repentinamente.

Eles não surgem.

Quase sempre começam pequenos.

Uma curiosidade.

Uma fantasia.

Uma concessão.

Uma busca aparentemente inofensiva.

Depois outra.

E mais outra.

Até que aquilo que parecia estar sob controle passa a controlar o indivíduo.

É justamente por isso que a Bíblia insiste tanto no domínio próprio.

Não porque Deus seja inimigo do prazer.

Mas porque conhece a fragilidade do coração humano.

Vivemos numa sociedade que fala de sexo o tempo inteiro. Crianças são expostas precocemente ao assunto. Adolescentes crescem cercados de estímulos. Adultos são bombardeados por imagens, discursos e sugestões praticamente vinte e quatro horas por dia.

Diante desse cenário, seria razoável esperar que a Igreja funcionasse como um contraponto.

Mas, em alguns casos, parece que ela decidiu competir com o mundo utilizando as mesmas ferramentas.

O resultado é uma geração cada vez mais informada sobre técnicas e cada vez menos instruída sobre santidade.

Cada vez mais confortável para falar sobre prazer e cada vez mais desconfortável para falar sobre pureza.

Cada vez mais interessada em experiências e cada vez menos preocupada com o temor de Deus.

Talvez a pergunta mais importante não seja como tornar os casamentos mais excitantes.

Talvez a pergunta mais urgente seja como preservar corações puros numa geração que perdeu a capacidade de corar.

Porque o objetivo do cristianismo nunca foi maximizar prazeres.

O objetivo do cristianismo é conformar homens e mulheres à imagem de Cristo.

E Cristo nunca ensinou seus discípulos a viverem em função dos seus desejos.

Ensinou-os a governá-los.

A Igreja não precisa de mais especialistas em estimular impulsos.

Precisa de homens e mulheres capazes de ensinar domínio próprio, reverência, santidade e temor do Senhor.

Num tempo em que tudo virou espetáculo, talvez a maior necessidade dos cristãos seja reaprender a tratar as coisas sagradas com a dignidade que elas merecem.

E poucas áreas da vida exigem tanto cuidado quanto aquela que Deus reservou para a intimidade do casamento.

Nem tudo o que pode ser dito precisa ser dito.

Nem tudo o que desperta curiosidade produz edificação.

E nem tudo o que gera audiência glorifica a Deus.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

MARCHANDO PARA QUAL JESUS?


Confesso que nunca consegui entender completamente a Marcha para Jesus.

Não estou dizendo que sou contra. Também não sou daqueles que criticam qualquer manifestação pública da fé cristã. Pelo contrário. Acho saudável que cristãos saiam dos templos, ocupem espaços públicos e testemunhem sua fé sem constrangimento.

Mas, depois de tantos anos assistindo às edições da marcha, continuo me perguntando: afinal, qual é o seu propósito?

É evangelismo?

Se for, seria interessante saber quantos descrentes são alcançados. Quantos se convertem. Quantos passam a frequentar uma igreja. Quantos abandonam uma vida distante de Deus após participarem do evento.

É comunhão entre os cristãos?

Pode ser. Embora a comunhão bíblica sempre tenha me parecido algo mais profundo do que caminhar algumas horas ao lado de milhares de desconhecidos ouvindo música em cima de trios elétricos.

É uma demonstração pública de fé?

Talvez.

Mas, sinceramente, depois de tantos anos, a impressão que tenho é que a Marcha para Jesus se transformou numa gigantesca vitrine onde cada participante parece encontrar um objetivo diferente. O cantor divulga sua agenda. O pastor fortalece sua influência. O político busca votos. O partido procura simpatizantes. A emissora gera conteúdo. O influenciador produz vídeos. E Jesus... bem, Jesus parece cada vez mais difícil de encontrar no meio da multidão.

O que mais me chamou a atenção neste ano não foram os milhares de cristãos presentes.

Foram os políticos.

Ali estavam figuras de todos os matizes ideológicos. Alguns deles defendendo pautas frontalmente incompatíveis com princípios bíblicos elementares. Outros que durante anos demonstraram absoluto desinteresse pelos valores cristãos, mas que, curiosamente, descobriram uma repentina afinidade com os evangélicos justamente quando o calendário eleitoral começa a se aproximar.

Nada contra políticos participarem de eventos religiosos.

Mas quando a presença deles se torna mais notada do que a mensagem pregada, alguma coisa saiu do lugar.

E como se não bastasse, ainda tivemos a ligação telefônica do presidente Lula para o evento, intermediada pelo bispo Estevam Hernandes.

A cena foi simbólica.

Enquanto milhares de pessoas participavam de uma marcha cujo nome faz referência ao Filho de Deus, uma das atenções principais acabou direcionada para uma autoridade política.

Não questiono o direito de ninguém falar. Nem o direito de um presidente cumprimentar participantes de um evento popular.

O que questiono é a inversão de prioridades.

Quando o púlpito se torna palanque, o Reino de Deus inevitavelmente perde espaço para os interesses do reino dos homens.

A Bíblia registra multidões seguindo Jesus pelas estradas da Galileia. Mas havia uma diferença fundamental. Elas caminhavam para ouvir Cristo.

Hoje, muitas vezes, parece que Cristo serve apenas como tema do evento.

A atração principal é outra.

Talvez eu esteja ficando velho.

Talvez eu seja excessivamente desconfiado.

Ou talvez eu simplesmente sinta falta da simplicidade do Evangelho.

Aquele Evangelho que não precisava de trio elétrico, celebridades, autoridades políticas nem estratégias de marketing para transformar vidas.

No fim da tarde, olhando as imagens da marcha, fiquei com a impressão de que milhares de pessoas realmente desejavam honrar a Deus. Não duvido da sinceridade delas.

Mas também fiquei com a sensação de que muitos dos que estavam nos palcos tinham interesses bem diferentes.

E foi então que me ocorreu uma reflexão incômoda.

Em ano eleitoral, parece que todo mundo quer marchar.

Marcha a direita.

Marcha a esquerda.

Marcha o centro.

Marcha o oportunista.

Marcha o candidato.

Marcha quem busca votos.

Marcha quem busca visibilidade.

Marcha quem busca influência. 

Só não tenho certeza se todos estão, de fato, marchando para Jesus.

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